Tensão arterial: sistólica, diastólica e valores de referência DGS
O que é a tensão arterial
A tensão arterial — designação portuguesa para o que em inglês se chama blood pressure — é a pressão exercida pelo sangue contra as paredes das artérias durante o ciclo cardíaco. Mede-se em milímetros de mercúrio (mmHg) e regista-se por dois valores: a sistólica, correspondente ao momento em que o ventrículo esquerdo se contrai e ejecta sangue, e a diastólica, correspondente ao momento em que o coração relaxa entre batimentos. Um valor típico saudável é 120/80 mmHg (“cento e vinte por oitenta”).
A tensão é um dos sinais vitais mais importantes porque valores elevados de forma crónica — hipertensão arterial — são o principal factor de risco modificável de acidente vascular cerebral (AVC), enfarte do miocárdio, insuficiência cardíaca e insuficiência renal. Segundo a Direcção-Geral da Saúde (DGS), cerca de 36% dos adultos portugueses são hipertensos, mas apenas cerca de metade estão controlados farmacologicamente. É por isso a “assassina silenciosa” — não dói.
Como se calcula
Não se calcula: mede-se. Um esfigmomanómetro (aparelho de tensão) infla uma braçadeira, corta temporariamente o fluxo arterial e depois liberta pressão gradualmente. A pressão a que o sangue volta a passar é a sistólica; a pressão a que o fluxo se torna contínuo é a diastólica.
Categorias segundo a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) e DGS 2023:
| Categoria | Sistólica (mmHg) | Diastólica (mmHg) |
|---|---|---|
| Óptima | < 120 | < 80 |
| Normal | 120-129 | 80-84 |
| Normal-alta | 130-139 | 85-89 |
| Hipertensão grau 1 | 140-159 | 90-99 |
| Hipertensão grau 2 | 160-179 | 100-109 |
| Hipertensão grau 3 | ≥ 180 | ≥ 110 |
| Hipertensão sistólica isolada | ≥ 140 | < 90 |
O valor mais alto entre sistólica e diastólica determina a categoria. Pressão arterial média (PAM) calcula-se por:
PAM = diastólica + (sistólica − diastólica) / 3
Exemplo prático
Um homem de 55 anos, comercial em Coimbra, mede em casa: 148/94 mmHg. Categoria: hipertensão grau 1. PAM: 94 + (148 − 94)/3 = 94 + 18 = 112 mmHg (normal < 100).
Deve confirmar em duas medições separadas por pelo menos uma semana, idealmente com monitorização ambulatória de 24 horas (MAPA) ou auto-medição em casa (AMPA) durante 7 dias, duas vezes por dia. Se confirmada, a DGS recomenda intervenção nos hábitos (dieta DASH, redução de sal < 5 g/dia, actividade aeróbica 150 min/semana, redução de álcool, cessação tabágica) e frequentemente medicação (IECA, ARA-II, tiazidas, cálcio-antagonistas).
Uma senhora de 68 anos com 136/72 mmHg: hipertensão sistólica isolada — comum após os 60 anos por rigidez arterial. Requer atenção e frequentemente tratamento, pois o risco cardiovascular acompanha essencialmente a sistólica em idosos.
Contexto em Portugal
A DGS mantém a Norma nº 020/2011 e actualizações sobre o rastreio e tratamento da hipertensão. Rastreio universal recomendado a partir dos 18 anos, com reavaliação a cada 3-5 anos em normotensos e anual em pré-hipertensos.
Farmácias comunitárias, unidades de saúde familiar e centros de saúde do SNS oferecem medição rotineira. Cada Novembro, o Dia Mundial da Hipertensão e as campanhas da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) promovem rastreios gratuitos.
Aparelhos automáticos de braço (Omron, Beurer, Rossmax) com validação clínica ESH/BHS têm precisão adequada para uso doméstico. Aparelhos de pulso ou dedo são menos fiáveis e não são recomendados.
Erros comuns
O primeiro erro é medir imediatamente após actividade física, café, tabaco ou stress. A tensão pode estar 15-30 mmHg acima do valor real. Regra: repousa 5 minutos sentado, sem falar, sem cruzar as pernas, com a bexiga vazia.
O segundo erro é usar braçadeira do tamanho errado. Uma braçadeira demasiado pequena para o braço sobrestima a sistólica em 5-15 mmHg. Perímetro do braço > 32 cm exige braçadeira grande.
O terceiro erro é medir só uma vez. Uma única medição é pouco fiável — recomendam-se 3 medições espaçadas de 1-2 minutos e usar a média das duas últimas. Idealmente, faz duas medições de manhã e duas à noite durante 7 dias antes da consulta.
O quarto erro é o “efeito de bata branca”: a tensão sobe 10-20 mmHg na consulta por ansiedade, sem estar realmente alta. A MAPA de 24h ou AMPA em casa distinguem hipertensão verdadeira do efeito de bata branca — que ainda assim é factor de risco.
O quinto erro é interromper medicação anti-hipertensiva porque “a tensão já está boa”. A hipertensão é doença crónica; a medicação normaliza, não cura. Parar sem indicação médica leva a rebound e risco cardiovascular acrescido.