Carregamento de carro eléctrico: potências, tarifas MOBI.E e tempos
O que é o carregamento de um carro eléctrico
Carregar um carro eléctrico (EV) significa injectar energia eléctrica na bateria de tracção — tipicamente 40-100 kWh de capacidade nos modelos actuais — a partir de uma fonte externa: tomada doméstica, wallbox privada ou posto de carregamento público. Em Portugal, o ecossistema é gerido pela MOBI.E, o operador da rede única de mobilidade eléctrica, que agrega operadores de pontos de carregamento (OPC) e comercializadores de electricidade para mobilidade (CEME).
Em 2026, existem cerca de 7 000 pontos públicos de carga em Portugal continental, das ilhas até ao interior. O crescimento é rápido — o PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) financiou +1 500 postos rápidos entre 2024 e 2026.
A “velocidade” do carregamento depende de dois factores: a potência que o posto fornece e a potência máxima que o carro aceita (limitada pelo carregador de bordo AC e pelo BMS em DC).
Como se calcula o tempo de carga
Fórmula base:
tempo (h) = energia a carregar (kWh) / potência efectiva (kW)
Escalões de potência típicos:
- Carregamento lento (schuko doméstica) — 2,3 kW (10 A) até 3,7 kW (16 A). Para carregar 40 kWh de 20% a 80%: ~10-14 horas.
- Wallbox residencial monofásica — 7,4 kW. Mesmos 40 kWh: ~5,5 horas.
- Wallbox trifásica — 11 kW (16 A tri) ou 22 kW (32 A tri). 40 kWh em 2-3,5 horas.
- Rápido AC público — até 22 kW, mesmo tempo que wallbox trifásica.
- Rápido DC — 50 kW (padrão urbano) até 150-350 kW (Ionity, Tesla V3). Um Kia EV6 em 350 kW carrega 10% → 80% em ~18 minutos.
Na prática, o tempo real é 10-15% superior ao teórico devido a perdas por calor e à curva de carga: a partir dos ~80% de estado da bateria (SoC), a potência é reduzida drasticamente para proteger as células.
Simula com a calculadora de carregamento eléctrico.
Exemplo prático em Portugal
VW ID.3 Pro (bateria 58 kWh útil, aceita 120 kW DC / 11 kW AC).
Casa (wallbox 7,4 kW, tarifa vazio 0,12 €/kWh):
- Carga completa 10% → 100%: 52 kWh × 0,12 = 6,24 €
- Tempo: ~7 horas (durante a noite)
- Custo por 100 km (17 kWh/100): ~2,04 €
Rápido MOBI.E EDP Universal (0,55 €/kWh):
- 10% → 80% (41 kWh): 22,55 €
- Tempo: ~30 minutos
- Custo por 100 km: ~9,35 €
Ionity em viagem A1 (0,79 €/kWh sem subscrição):
- Mesmos 41 kWh: 32,39 €
- Tempo: ~26 minutos (aceita 120 kW)
- Custo por 100 km: ~13,43 € — pior que gasolina em alguns casos, mas continua vantajoso em TCO por menos manutenção.
UCEV (Utilizador de Carregamento de Veículo Eléctrico): em 2026, um plano subscrito com um CEME permite cortar 15-30% ao preço em rápidos e ter interoperabilidade europeia via eRoaming.
Contexto em Portugal
MOBI.E é o CGO (Centro de Gestão Operacional) único: qualquer carga num posto público passa pelo MOBI.E, que factura o utilizador via o CEME contratualizado (EDP Comercial, Iberdrola, Endesa, Galp Electric, MOBIVIP, entre outros). Não há tarifa “MOBI.E” — o preço é fixado pelo CEME + o OPC do posto.
Wallbox em casa:
- Custo instalação: 800-1 500 € para wallbox monofásica; 1 400-2 500 € trifásica.
- Necessária alteração do quadro em casas antigas e potência mínima 6,9 kVA para carga 7,4 kW.
- Aumento da potência contratada eleva o termo fixo, mas compensa com tarifa bi-horária em vazio.
Prédios: o DL 39/2021 obriga a que qualquer condómino com lugar próprio possa instalar posto de carga, mesmo sem aprovação de assembleia (após notificação). Custo do técnico condomínio à parte, mas o direito é irrecusável.
Autocarros e frotas: MOBI.E prepara em 2026 o hub de carregamento pesado para autocarros e camiões (megawatt charging).
Erros comuns
- Assumir potência máxima do posto: se o teu carro só aceita 50 kW em DC e o posto oferece 150 kW, carregas a 50 kW. A limitação é sempre a do carro.
- Carregar até 100% em rápido: os últimos 20% demoram tanto como os primeiros 60%. Em viagem, faz saltos 10-80% e reserva 100% só para carga em casa antes de uma viagem longa.
- Comparar €/kWh entre CEME sem incluir taxa de estacionamento: alguns postos cobram penalização por ocupação após carga (0,10-0,30 €/min), o que pode duplicar o custo se esqueceres o carro conectado.
- Ignorar a curva do inverno: baixas temperaturas reduzem a velocidade de carga rápida (pré-condicionamento térmico pode compensar) e a autonomia real cai 15-25%. Ver autonomia real.
- Não subscrever CEME de referência: quem usa rápidos ocasionalmente sem contrato paga preço “ad-hoc” (o mais caro). Uma subscrição de 5 €/mês pode reduzir 20-30% do preço.
Ver também
- Autonomia do eléctrico — real vs WLTP.
- Gasolina vs diesel vs eléctrico — comparativo global.
- Tarifa de luz — bi-horária para carga nocturna.