Como funciona a escala de Richter e como se lê a magnitude sísmica
O que é a escala de Richter
A escala de Richter, proposta em 1935 por Charles Richter e Beno Gutenberg no California Institute of Technology, foi a primeira tentativa séria de quantificar a energia libertada por um sismo através da amplitude registada num sismógrafo padrão (o Wood-Anderson) a 100 km do epicentro. Embora hoje seja quase universalmente referida como “a escala de Richter” pelo público, os serviços sismológicos modernos (USGS, IPMA) já não a usam para eventos moderados a fortes — foi substituída pela magnitude de momento (Mw) por saturar para magnitudes acima de aproximadamente 7,0. Ainda assim, a lógica logarítmica e os valores reportados são muito parecidos, e a escala continua a ser a linguagem franca dos noticiários.
Fórmula e o que significa logarítmica
A magnitude local de Richter (ML) é dada por:
ML = log10(A) - log10(A₀)
Onde A é a amplitude máxima registada no sismógrafo (em micrómetros) e A₀ uma amplitude de referência que depende da distância ao epicentro.
Como é logarítmica de base 10, cada unidade de magnitude representa 10× mais amplitude e cerca de 32× mais energia libertada. Um sismo de magnitude 6 liberta 32 vezes mais energia que um de magnitude 5, e cerca de 1000 vezes mais que um de magnitude 4.
Exemplo prático em Portugal
Portugal tem uma sismicidade real, apesar de baixa a moderada em média. Os dois casos históricos essenciais:
- 1 de Novembro de 1755, Lisboa: estima-se magnitude 8,5 a 9,0 Mw, epicentro no oceano a sudoeste do cabo de São Vicente. Destruiu Lisboa, o tsunami inundou a baixa e o incêndio consumiu o resto. É a maior catástrofe sísmica documentada na Europa.
- 28 de Fevereiro de 1969, cabo de São Vicente: magnitude 7,9 Mw. Sentido em toda a Península Ibérica e Norte de África. Provocou 13 mortes em Portugal, principalmente por colapso de construções antigas em Setúbal e Silves.
Um sismo típico do dia-a-dia registado pelo IPMA no Algarve ou Açores anda entre magnitude 2 e 3,5 — sentido localmente por algumas pessoas mas sem danos. Só a partir de magnitude 5 se espera dano ligeiro em edifícios mal construídos.
Contexto em Portugal
O IPMA opera a Rede Sísmica Nacional e publica em tempo real todos os eventos detectados em portugal.ipma.pt. Portugal continental está em zona sísmica moderada devido à fronteira entre a placa Euroasiática e a Africana, que passa a sul do Algarve (falha Açores-Gibraltar). Os Açores estão em zona activa por vulcanismo. O RSA (Regulamento de Segurança e Acções para Estruturas de Edifícios e Pontes) obriga desde 1983 a que construções novas resistam a sismos com período de retorno de 475 anos.
Erros comuns
O primeiro erro é confundir magnitude com intensidade. Magnitude (Richter, Mw) é uma medida da energia libertada na origem — é única para cada sismo. Intensidade (escala Mercalli Modificada, ou EMS-98 na Europa) mede os efeitos observados num local específico — varia com a distância, tipo de solo e construções. Um mesmo sismo pode ter intensidade IX perto do epicentro e III a 200 km.
O segundo erro é achar que “magnitude 6 é o dobro de magnitude 3”. Não é. É 1000× mais amplitude e cerca de 32 000× mais energia.
O terceiro erro é reportar Richter para sismos grandes. Acima de magnitude 7, a escala satura. O sismo do Japão de 2011 foi 9,1 Mw, não Richter. IPMA e USGS reportam sempre Mw para eventos noticiáveis.
O quarto erro é assumir que um sismo profundo e um superficial da mesma magnitude fazem o mesmo estrago. Um sismo de magnitude 5 a 10 km de profundidade pode ser bem mais destrutivo do que um de magnitude 6 a 300 km.
Referências
- Logaritmos — para perceberes a matemática de base da escala.
- Notação científica — útil para exprimir a energia em joules.