O que é latência (ping) e o que a determina
O que é latência
A latência é o tempo que uma unidade mínima de informação (um pacote) demora a ir de um ponto A a um ponto B numa rede. Medida em milissegundos (ms), é o que o utilitário ping reporta como Round Trip Time (RTT) — o tempo de ida e volta, não só ida. Se o teu ping para www.google.pt reporta 12 ms, cada sentido demora tipicamente cerca de 6 ms. A latência é diferente da largura de banda (velocidade de download em Mbps): podes ter 1 Gbps de fibra com 80 ms de ping — muita banda, mas cada pedido demora, o que arruína jogos online, videoconferência e páginas com muitos recursos.
O que determina a latência
Quatro componentes somam-se em cada trajecto:
latência total = propagação + serialização + fila + processamento
- Propagação: velocidade do sinal no meio. Em fibra óptica a luz viaja a cerca de 200 000 km/s (2/3 da velocidade no vácuo, devido ao índice de refracção do vidro ≈ 1,5). Percorrer 1000 km em fibra demora 5 ms teóricos por sentido.
- Serialização: tempo a “empurrar” o pacote para a linha. Um pacote de 1500 bytes numa ligação de 1 Gbps demora 12 microssegundos — insignificante em fibra moderna.
- Fila (queueing): quando o router está ocupado, o pacote espera. Este é o principal culpado do bufferbloat — congestionamento a inflar o ping para 200+ ms quando fazes upload pesado.
- Processamento: cada hop (router intermédio) inspecciona e reencaminha. Numa ligação típica em Portugal atravessas 8 a 15 hops até um servidor europeu.
Exemplo prático em Portugal
Fazer ping de Lisboa a diferentes destinos com uma fibra doméstica NOS, MEO ou Vodafone típica:
- Servidor em Lisboa (mesmo AS): 2 a 5 ms.
- Servidor em Madrid: 15 a 25 ms.
- Servidor em Frankfurt (hub europeu): 30 a 45 ms.
- Servidor em Nova Iorque: 80 a 100 ms — cabo submarino Sines–EUA.
- Servidor em São Paulo, Brasil: 130 a 160 ms — via cabo EllaLink (Sines–Fortaleza, activo desde 2021).
- Servidor em Tóquio: 220 a 260 ms — meia volta ao mundo.
Portugal é bem servida por três cabos submarinos principais: EllaLink (Sines–Fortaleza, 6000 km, latência Lisboa–São Paulo abaixo de 60 ms num sentido), MAREA (Bilbau–Virginia, com landing próximo), e conectividade a Marrocos, Cabo Verde e Angola. Sines tornou-se um dos principais hubs Atlânticos da Europa.
Contexto: 5G vs Wi-Fi vs fibra
Em teoria:
- Fibra em casa: 1-3 ms de latência local.
- Wi-Fi 6/6E doméstico bem configurado: adiciona 2-5 ms sobre a fibra.
- 5G Standalone: 5-15 ms end-to-end na antena, promessa de 1 ms em Ultra Reliable Low Latency Communication (URLLC).
- 4G LTE: 25-50 ms típico.
- Satélite geoestacionário: 550-650 ms (36 000 km cada sentido).
- Starlink (LEO): 30-50 ms (órbita a 550 km).
Para jogos online competitivos, abaixo de 30 ms é bom; para negociação financeira (“HFT”), cada milissegundo custa milhões — daí ligações dedicadas Sines–Nova Iorque via EllaLink serem alugadas por bancos.
Erros comuns
O primeiro erro é confundir latência com velocidade. Um plano de 1 Gbps não garante ping baixo — pode ter 60 ms se o operador congestionar o peering.
O segundo erro é culpar o operador quando o problema é o Wi-Fi. Testa sempre por cabo Ethernet antes de queixar-te à MEO/NOS/Vodafone. Wi-Fi em canais congestionados (2,4 GHz num prédio) facilmente adiciona 30 ms.
O terceiro erro é medir com um servidor demasiado longe. ping 8.8.8.8 (Google) reporta ~15 ms de Portugal — mas isso não diz nada sobre o teu ISP, porque o Google tem CDN em Lisboa.
O quarto erro é ignorar jitter. Latência média de 20 ms com variação (jitter) de 40 ms é péssima para videoconferência — melhor 40 ms estáveis do que 20±40.
O quinto erro é assumir que o ping baixo compensa upload pobre. Numa videoconferência, o teu upload é o outro lado da equação. Um upload de 5 Mbps assimétrico pode ter mais problemas do que uma linha simétrica de 100 Mbps com maior latência.
Referências
- Conversor Mbps para MB/s — para converter velocidade de linha.
- Distância entre dois pontos GPS — para estimar propagação teórica em fibra.