Dilatação térmica linear: fórmula, coeficientes e aplicações
O que é a dilatação térmica
A dilatação térmica é a variação das dimensões de um corpo em resposta a alterações de temperatura. Quase todos os materiais se expandem quando aquecem e contraem quando arrefecem, porque a energia térmica aumenta a amplitude das vibrações atómicas, afastando ligeiramente os átomos entre si.
O efeito parece pequeno, mas ao longo de estruturas grandes torna-se dramático. Uma ponte de 500 metros pode variar mais de 20 cm entre um dia frio de Inverno e uma tarde de Verão em Elvas. Um tubo de aço de um gasoduto, sem juntas de dilatação, encurva ou rompe. Um trilho de comboio soldado, se instalado a temperatura errada, deforma em “S” (fenómeno de sun kink) e descarrila comboios.
O estudo formal remonta a Fahrenheit e a Réaumur no século XVIII, com os coeficientes tabelados posteriormente por metrologia industrial. Hoje é matéria de engenharia estrutural, mecânica e civil — normalizada pelo ISO 7991 e pela NP EN 1991-1-5 (acções térmicas em estruturas) em Portugal.
Fórmula
A dilatação linear (variação de comprimento) é:
ΔL = α × L₀ × ΔT
Onde:
ΔL— variação de comprimento (m)α— coeficiente de dilatação linear (1/°C ou 1/K)L₀— comprimento inicial (m)ΔT— variação de temperatura (°C)
Para superfícies, o coeficiente de dilatação superficial é aproximadamente 2α. Para volumes, o coeficiente de dilatação volumétrica é aproximadamente 3α (materiais isotrópicos).
Coeficientes típicos (α em ×10⁻⁶ /°C):
- Aço estrutural: 12
- Alumínio: 23
- Cobre: 17
- Betão armado: 10-12
- Vidro comum: 9
- Vidro Pyrex: 3,3
- Madeira (paralela às fibras): 5
- PVC: 70
- Invar (liga níquel-ferro): 1,2
O Invar foi criado exactamente para minimizar a dilatação — usa-se em instrumentos de precisão e padrões metrológicos.
Exemplo prático
Ponte metálica de 200 m em Bragança, projectada para funcionar entre −10 °C (Inverno) e +40 °C (Verão).
- Variação térmica:
ΔT = 50 °C - Coeficiente do aço:
α = 12 × 10⁻⁶ /°C - Dilatação:
ΔL = 12 × 10⁻⁶ × 200 × 50 = 0,12 m = 12 cm
O projecto precisa de juntas de dilatação capazes de absorver estes 12 cm. Sem elas, a tensão gerada seria σ = E × α × ΔT = 210 000 MPa × 12×10⁻⁶ × 50 = 126 MPa — perto do limite elástico do aço estrutural comum.
Trilho de comboio soldado, tramo de 300 m instalado a 25 °C. Aquecimento até 55 °C num dia de Verão em Évora:
ΔL = 12 × 10⁻⁶ × 300 × 30 = 0,108 m ≈ 11 cm
Como o trilho está restringido, essa dilatação converte-se em tensão de compressão que pode encurvar a via. Por isso os trilhos são soldados a temperaturas de referência bem definidas e usam-se aparelhos de dilatação em zonas sensíveis.
Gasoduto de 1 km de aço enterrado entre Sines e uma central. Ciclo típico ΔT = 20 °C. ΔL = 12 × 10⁻⁶ × 1000 × 20 = 0,24 m. Compensado com liras de dilatação (curvas em Ω) ao longo do traçado.
Contexto em Portugal
Em Portugal, o Eurocódigo 1 Parte 1-5 (NP EN 1991-1-5) define as acções térmicas em edifícios, pontes e reservatórios industriais. Os projectistas usam temperaturas extremas mínima e máxima com base em mapas climáticos do IPMA:
- Zona Interior Norte (Bragança): mínimas até −15 °C, máximas até 40 °C
- Zona Interior Sul (Alentejo): mínimas até 0 °C, máximas até 45 °C
- Zona Litoral: amplitude reduzida por influência atlântica
Em obras públicas — pontes, viadutos, tuneladoras, pipelines — o cálculo de dilatação é obrigatório e verificado por Fiscalização. Em edifícios altos (Torre Vasco da Gama, Torre Ocidente), o cálculo estende-se a fachadas em vidro e revestimentos metálicos.
Nas cozinhas industriais e hospitais, a dilatação de tubagens de água quente e vapor obriga a compensadores. Em habitação, o problema aparece em soalhos de madeira (dilatação em Verão húmido) e em revestimentos cerâmicos exteriores (fenómenos de destacamento por dilatação diferencial).
Erros comuns
Ignorar dilatação em obras longas. Um passadiço de 30 m em madeira pode dilatar 1 cm num dia quente — sem folgas, arqueia ou fende.
Usar α em °C onde a fórmula pede K. Como as escalas Celsius e Kelvin têm o mesmo tamanho de grau, ΔT em °C = ΔT em K. O coeficiente é numericamente igual. Mas se confundires temperatura absoluta com variação, o resultado explode.
Aplicar dilatação linear a volumes sem factor 3. Para calcular expansão volumétrica de um bloco de betão, ΔV = 3α × V₀ × ΔT — não α × V₀ × ΔT.
Assumir isotropia em materiais anisotrópicos. Madeira dilata pouco na direcção das fibras (α ≈ 5×10⁻⁶) mas muito na transversal (α ≈ 30-50×10⁻⁶). Grafite, fibra de carbono e compósitos têm coeficientes muito diferentes por direcção.
Esquecer o efeito da água. No betão, a dilatação térmica combina-se com retracção por secagem — um efeito higrométrico que pode ser da mesma ordem de grandeza. Nunca separes térmica de hídrica em cálculos rigorosos.
Ver também
- Densidade — outra propriedade física dependente da temperatura
- Áreas e volumes — dilatação superficial e volumétrica
- Celsius Fahrenheit — conversão de temperaturas