Como funciona a compostagem doméstica e o rácio Carbono/Azoto
O que é compostagem doméstica
A compostagem é a decomposição controlada e aeróbia de matéria orgânica por microrganismos, produzindo um correctivo agrícola estável e rico em nutrientes — o composto. Ao contrário de deitar restos no lixo indiferenciado (que segue para aterro ou incineração), ou mesmo na recolha de bio-resíduos municipal, a compostagem doméstica fecha o ciclo no quintal ou na varanda, reduz o volume de resíduos em 30-40% e produz um adubo natural com valor real para plantas, hortas e vasos. Um agregado familiar português médio pode desviar 100 a 150 kg de bio-resíduos por ano com um compostor doméstico de 300-400 L.
O rácio Carbono/Azoto e como se calcula
O motor da compostagem é a proporção entre carbono (C) e azoto (N) dos materiais introduzidos. Os microrganismos precisam de carbono como fonte de energia e azoto para sintetizar proteínas. O rácio ideal ronda os 25 a 30 partes de carbono para 1 de azoto:
C/N óptimo ≈ 25:1 a 30:1
Materiais castanhos (secos, ricos em C): folhas mortas (C/N ≈ 50-80), palha (80), cartão sem tinta (350), aparas de madeira (400), agulhas de pinheiro (60-100).
Materiais verdes (húmidos, ricos em N): restos de frutas e vegetais (C/N ≈ 15-20), cascas de café (20), erva cortada (17), estrume de galinha (7).
Uma regra prática: 2 a 3 partes de castanho para 1 parte de verde em volume dá um C/N próximo do óptimo. Rácios abaixo de 20 geram cheiro a amoníaco (excesso de N); acima de 40 a decomposição estagna (falta de N).
Exemplo prático em Portugal
Numa moradia em Ourém com jardim e horta, uma família de 3 gera por semana cerca de 2 kg de restos de cozinha (verdes) e junta 4 a 6 kg de folhas do carvalho no Outono e relva cortada (mistura mista) na Primavera. Um compostor de 400 L bem gerido:
- Início do processo: mistura de folhas trituradas + restos de cozinha em camadas alternadas.
- Reviragem com forquilha a cada 2-3 semanas para arejar.
- Humidade “de esponja espremida” — nem seco nem encharcado.
- 3 a 6 meses para composto maduro (mais rápido no Verão, mais lento no Inverno).
- Rendimento: cerca de 40-60 kg de composto pronto por ciclo — suficiente para adubar 20 m² de horta a 3-4 cm de camada.
Contexto legal em Portugal
O Decreto-Lei n.º 102-D/2020, que estabelece o regime geral da gestão de resíduos (RGGR), transpôs para o direito nacional a directiva europeia 2018/851. Impõe que, desde 1 de Janeiro de 2024, todos os municípios portugueses assegurem recolha selectiva de bio-resíduos, obrigatória ou por compostagem doméstica/comunitária.
Muitos municípios (Cascais, Oeiras, Mafra, Braga, Loulé, entre outros) distribuem gratuitamente compostores domésticos aos munícipes que se comprometam a compostar. O PERSU 2030 (Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos) fixou metas de 65% de reciclagem em 2035 e considera a compostagem doméstica contribuinte directo para esta meta.
Erros comuns
O primeiro erro é meter carne, peixe, ossos, lacticínios e alimentos cozinhados com gordura. Atraem roedores e cheiram mal — devem ir na recolha municipal de bio-resíduos, não no compostor doméstico.
O segundo erro é deitar tudo verde. Sem estrutura castanha, a massa compacta, perde oxigénio, decompõe-se em anaerobiose e cheira a esgoto. Solução: manter sempre uma “reserva” de folhas secas ou cartão triturado ao lado do compostor.
O terceiro erro é não arejar. Compostar é aeróbio — sem oxigénio, transforma-se em fermentação. Reviravolta com forquilha a cada 2-3 semanas é o mínimo.
O quarto erro é humidade errada. Composto seco não decompõe; encharcado apodrece. Regra do punhado: apertando material, deve verter apenas 1-2 gotas.
O quinto erro é achar que compostar cascas de citrinos ou de banana em grande quantidade não dá problema — dão. Citrinos acidificam demasiado e a banana industrial pode ter pesticidas persistentes. Em pequena quantidade não há problema.
Referências
- Pegada de carbono — quantifica o impacto de desviar bio-resíduos do aterro.
- Pegada hídrica — o composto reduz necessidade de rega ao melhorar retenção do solo.